sábado, 28 de setembro de 2013
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
mulher, moderna
"Ficou sentada na soleira da
cabana como se estivesse a sonhar, profundamente inconsciente do tempo e das
circunstâncias. Ela estava tão longe dali que ele olhou de repente para ela e
viu-a completamente serena, com uma expressão expectante. Achou que esta era a expressão
dela. E uma pequena e fina língua de fogo deslizou-lhe subitamente pelas
costas, e sentiu uma dor no coração. Receava com uma repulsa quase mortal
qualquer contacto humano. Acima de tudo, desejava que ela se fosse embora e o
deixasse no seu próprio isolamento. Receava a vontade dela, a sua vontade de
mulher, e a sua insistência de mulher moderna. Acima de tudo receava a sua
impudência fria, própria da alta sociedade: fazer o que se queria. Porque, no
fundo, ele era um empregado. E odiava a presença dela ali".
D. H. Lawrence, “O amante de Lady
Chatterley”.
Quanto mais conheço Lady
Chatterley, mais detesto Madame Bovary. Ainda mais.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
hand in glove *
É uma loja pequenina e linda na
calçada do Carmo. A luvaria Ulisses tem sempre fila e nunca faz saldos. Há anos
que olho a montra, como uma personagem de Charles Dickens. Este mês não dá,
para o próximo, talvez. Nunca é uma boa altura para comprar um par de luvas,
daquelas luvas. Tive muitas outras, que me acompanharam em algumas das minhas
melhores viagens (o frio, o inverno, coisas boas, exatamente), mas não como
aquelas. O objeto de desejo foi-se tornando platónico. Já não estremecia de
vontade, sorria e acarinhava a ideia de um dia. Até que se materializou nas
minhas mãos há semanas. Um presente de amigos a quem bastaram duas passagens
pela loja, olhares, nenhuma palavra. Os gestos da amizade são com os do
amor carnal, sem a carne. Que chegue o outono, porque tenho amigos. E um par de
luvas de pele de tonalidade controversa mas que, para mim, são, obviamente,
cor-de-rosa.
* lyrics and music by The Smiths
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
"The Warrior", de Gavin O'Connor
MMA não é boxe, mas quem gosta de
filmes entre cordas não deita assim a toalha ao chão. O filme, de
2011, escapou-me não sei como. A esperança de ter encontrado qualquer coisa adormeceu
na tristeza de um clássico instantâneo em potência que não resulta. Falta
qualidade aos diálogos e um pouco menos, só um bocadinho, de estética de
videoclip. É ela que dá a cena que
valerá a pena (mas só para incondicionais do género). O encontro final de irmãos,
ao som the “About Today”, de The National, fica perto. É o amor, duro
como punhos, a lutar contra uma canção.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
"A noiva prometida" ("Lemale et ha'halal"), de Rama Burshtein.
Não queremos apenas preencher o vazio. Ninguém quer. Queremos ser o espaço que ocupamos. E vamos aceitando que há várias formas de construir "um lar verdadeiro". Formas que não escolhíamos (não?), que não professamos, que, a espaços, nos chocam e, a espaços, nos fazem chorar de alegria.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
olhar e ver
“A primeira tarefa do escritor não
é ter opiniões, mas contar a verdade… e recusar-se a ser cúmplice de mentiras e
da desinformação. A literatura é a casa da nuance e da rebeldia contra as vozes
da simplificação. A tarefa do escritor é fazer com que seja mais difícil
acreditar nos saqueadores da mente. A tarefa do escritor é fazer-nos ver o
mundo tal como ele é, cheio de diferentes reivindicações, partes e experiências.
A tarefa do escritor é descrever
as realidades: as realidades sórdidas, as realidades de êxtase. A essência do
conhecimento fornecido pela literatura (a pluralidade da obra literária) está
em ajudar-nos a compreender que, o que quer que esteja a acontecer, há sempre
outras coisas a acontecer”.
Susan Sontag, discurso de aceitação
do prémio Jerusalém, em “Ao mesmo tempo”, Quetzal.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
desejos minúsculos
Um mundo com menos capitulares e menos pontos de exclamação é o que desejo. O ponto final é uma coisa tão bonita. E colocar tudo em minúsculas, não tem preço. As exceções são isso mesmo. A Constituição, o Presidente (só o da República), cá está, a República, e assim. Sufoco ao ler um texto cheio de letras maiúsculas. É falso, é respeito postiço. Parece que as palavras devem vassalagem umas às outras e todas a alguém que as possa ler. Fico cheia de medo, não consigo respirar.
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