June Carter-Cash e Johnny Cash
Haverá poucos nomes tão bonitos como June. E não é do mês. Ou teria que ser September.
sábado, 31 de agosto de 2013
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
fighting for the dream
Um cristão deve ser grato. Para uns é mais fácil do que para outros. Para mim, é fácil, sou uma privilegiada em muitos aspetos. E estou profundamente grata por este ano ter podido pisar o mesmo chão que um dos meus heróis, Martin Luther King Jr, Dr. King, como respeitosamente é chamado. Não só estive em Washington onde há 50 anos ele proferiu o discurso que hoje se lembra, como tive a graça de ter estado em Montgomery, no Alabama, a cidade onde Dr. King emergiu como líder na luta pelos direitos cívicos nos Estados Unidos. O Alabama fica no Sul dos Estados Unidos, onde a capacidade de um cristão afro-americano em ser grato era naquela altura desafiada a todo o momento. Como era desafiada a capacidade de resistir pacificamente. A resistência pacífica aprendia-se, aprende-se, em aulas. Ali, “dar a outra face” não era um chavão usado para aborrecer cristãos. “Dar a outra face” era lutar sem usar a violência. Qualquer homem (e mulher) bom sabe que “dar a outra face” é uma coisa que se faz, embora normalmente não se fale nisso. A forma como a religião foi usada para subjugar e dominar está sobejamente documentada, e como foi usada para lutar pela justiça e a igualdade sociais, também. Martin Luther King e o movimento pelos direitos cívicos são indissociáveis do conceito de amor cristão. Descrevi, no blogue que mantive durante a viagem, como Montgomery é ainda uma fratura exposta. E não foi apenas no Sul profundo que vi a ferida aberta. Em Washington enquanto servi comida a sem-abrigo por umas horas testemunhei que praticamente todos os homens que ali foram jantar eram afro-americanos. Em Pittsburgh, na Pennsylvania, estive uma manhã num tribunal e todos os homens que passaram por mim algemados eram afro-americanos. Também em Pittsburgh, descobri que o facto de serem homens não era nenhuma coincidência. A questão de género dentro da desigualdade racial nos Estados Unidos coloca-se ao contrário. É aos rapazes que é mais difícil permanecer na escola, ascender, sair da sua circunstância de pobres e negros. As raparigas afro-americanas são mais bem-sucedidas a agarrar-se a todas as pequenas oportunidades que têm. Conheci o trabalho da Fundação Heinz no estudo e combate a esta realidade. Foi ainda em Pittsburgh que almocei com o juiz Williams, um homem encantador, um afro-americano, membro do Partido Democrata, que um dia incendiou a cidade ao dizer que não fazia acordos para livrar meninos brancos da cadeia porque isso nunca acontecia com os adolescentes negros. Depois do almoço, de visita ao seu gabinete, quase à saída, deixou cair: “O meu avô limpou casas de banho neste tribunal”. E nós desconcertados. O sonho de Dr. King cumprido em duas gerações. Mas foi no Alabama que mais me emocionei. Quando me emociono dificilmente guardo isso para mim, parece uma maldição, às vezes, mas não ali. O entusiasmo e as lágrimas grossas que não consegui evitar espelharam nos olhos de quem me recebia o amor que cumpre Martin Luther King todos os dias. É com amor que ali lutam diariamente, ainda hoje arriscando as suas vidas, no cumprimento de um sonho. O sonho. O pendão no Memorial pelos Direitos Cívicos lá estava: “The march continues”.
domingo, 25 de agosto de 2013
enamoramentos
As mesmas coisas. Sempre as mesmas coisas a sair das bocas. Ou é de mim. Tem que ser de mim, há tantas coisas novas a serem ditas. Oiço mal, concedo, porque às vezes parece que a maior parte das palavras já estão agrupadas. Mas na literatura não há desculpas. É pôr de lado a tralha que já se sabe, por conhecimento ou intuição, o que se escreve pelo efeito e pela lamechice. Peguei, então, em “Los enamoramientos”, de Javier Marías, sem evitar o divertimento do engano das senhoras no areal, retidas pela capa de idílio amoroso. A ironia feita objeto, um primor. E sujeitei-me aquilo. À melhor literatura, à melhor crueldade, ao melhor cinismo. Indefesa às verdades no vento da praia, como quem recebe pancada com toalhas molhadas para não deixar marca. No final do livro já me tinha livrado da palidez pré-balnear e isso era a gargalhada final do autor. O mau aspeto ia melhor com esta angústia literária. Resgatei-me rapidamente. Não é nada disso, estás é bem assim, a leres bons livros mas com boas cores. E contra os lugares comuns das mesmas coisas a serem repetidas como martelos, abri o facebook – estás de férias, larga isso, são sempre as mesmas coisas – e lá estava. Igual a tantas demonstrações públicas de felicidade. Igual e completamente única. A minha professora de espanhol está apaixonada. E eu fiquei tão feliz por ela, e muito agradecida que o tenha partilhado daquela maneira. O vulgar faz-se precioso todos os dias. Estou vingada, Javier Marías. E pronta para o teu próximo livro.
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
ausência
“The bling ring”, de Sofia Coppola
Para mim, ela parte sempre em vantagem. Até como atriz gostei de Sofia Coppola. Aquelas críticas demolidoras à interpretação da filha do seu pai em “O Padrinho III” foram uma conspiração de inveja que redundou na felicidade de ela ter começado a fotografar e, depois, a realizar. Quem é que não queria cozinhar ‘gnocchi’ com o Andy Garcia? Se é verdade que estou a ignorar “Marie Antoinette”, que passado o impacto visual deixou-me com muito pouco, é também porque a adoro. É sobretudo porque decidi adorá-la.
Mas agora, não senti nada. E isso, por mais volta que se lhe dê, não é bom.
domingo, 11 de agosto de 2013
da estética da violência
Preferia não ter visto, mas como tudo o que gostaria de não ter visto, foi melhor que tivesse. Um programa de televisão de suposta grande audiência em que ‘famosos’ dançam mostrou um antigo jogador de futebol num ‘paso doble’. Seria sempre mau, mas a alegada coreografia encena explicitamente atos de violência do homem em relação à mulher. Sim, ‘o paso doble’ é uma expressão em que os corpos de afastam e aproximam, há a violência do desejo e há um jogo de rejeição e cedência. Outra coisa é a estetização da violência contra as mulheres e/ou da violência conjugal. E não, isto não é um desabafo. É o que é.
sonhadores
“Sabe, Nástenka, até que ponto eu cheguei? Sabe que já me vejo obrigado a festejar os aniversários das minhas sensações, os aniversários das coisas de que eu gostava tanto dantes mas que, pura e simplesmente, não aconteceram – aniversários de sonhos, de sonhos estúpidos e imateriais – e que me vejo obrigado a fazê-lo porque nem sequer esses sonhos estúpidos já existem e porque não tenho com que os suplantar: porque também os sonhos podem ser suplantados!”
Fiódor Dostoiévski, “Noites brancas”, tradução do russo de Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio e Alvim.
Fiódor Dostoiévski, “Noites brancas”, tradução do russo de Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio e Alvim.
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