segunda-feira, 12 de agosto de 2013

ausência



The bling ring”, de Sofia Coppola




Para mim, ela parte sempre em vantagem. Até como atriz gostei de Sofia Coppola. Aquelas críticas demolidoras à interpretação da filha do seu pai em “O Padrinho III” foram uma conspiração de inveja que redundou na felicidade de ela ter começado a fotografar e, depois, a realizar. Quem é que não queria cozinhar ‘gnocchi’ com o Andy Garcia? Se é verdade que estou a ignorar “Marie Antoinette”, que passado o impacto visual deixou-me com muito pouco, é também porque a adoro. É sobretudo porque decidi adorá-la.

Mas agora, não senti nada. E isso, por mais volta que se lhe dê, não é bom.



domingo, 11 de agosto de 2013

da estética da violência

Preferia não ter visto, mas como tudo o que gostaria de não ter visto, foi melhor que tivesse. Um programa de televisão de suposta grande audiência em que ‘famosos’ dançam mostrou um antigo jogador de futebol num ‘paso doble’. Seria sempre mau, mas a alegada coreografia encena explicitamente atos de violência do homem em relação à mulher. Sim, ‘o paso doble’ é uma expressão em que os corpos de afastam e aproximam, há a violência do desejo e há um jogo de rejeição e cedência. Outra coisa é a estetização da violência contra as mulheres e/ou da violência conjugal. E não, isto não é um desabafo. É o que é.




sonhadores

“Sabe, Nástenka, até que ponto eu cheguei? Sabe que já me vejo obrigado a festejar os aniversários das minhas sensações, os aniversários das coisas de que eu gostava tanto dantes mas que, pura e simplesmente, não aconteceram – aniversários de sonhos, de sonhos estúpidos e imateriais – e que me vejo obrigado a fazê-lo porque nem sequer esses sonhos estúpidos já existem e porque não tenho com que os suplantar: porque também os sonhos podem ser suplantados!”


Fiódor Dostoiévski, “Noites brancas”, tradução do russo de Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio e Alvim.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

suburbanos

A calma é maior do que no campo. Ou parece. No campo não é calma, é vastidão - e nós no meio. Há os barulhos não atribuíveis de que não se tem medo porque são dali. No campo não se diz ‘o campo’, como a cidade raramente se nomeia. A calma só existe nos subúrbios bons porque é uma criação. As almas todas juntas, separadas em caixas, a fingir que não se ouvem umas às outras a fazer amor, a arrumar a cozinha, a ver má televisão, a deambular na insónia. Separados de um centro por uma linha de comboio, por uma estrada que, pensamos, está agora vazia. Protegidos de acidentes e roubos, acreditamos, com saudades da terra, do campo, exilados das nossas pronúncias que até já dizemos ‘o campo’. E por isso o verdadeiro medo está aqui. Há um terror que é só dos subúrbios bons. Sentimo-lo quando regressamos tarde.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013


Fotografia de Alfred Eisenstaedt para a LIFE. Marilyn Monroe em casa, 1953.

A cura pela leitura é uma ótima ficção que vale a pena praticar.

sábado, 3 de agosto de 2013

a cidade

"No campo não havia nada que pusesse à prova a minha esperança. Tinha feito as pazes com a minha esperança. Mas quando cheguei a Nova Iorque, bastaram algumas horas para Nova Iorque fazer aquilo que faz às pessoas - despertar as possibilidades. A esperança irrompe".

Philip Roth, "O fantasma sai de cena", D. Quixote.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

todos os nomes

Na página 7 do jornal “Público” de ontem está a notícia que já tinha visto, partilhadíssima que foi no Facebook. “Cão que matou bebé sai do canil e passa a chamar-se Mandela”.

No canto superior direito da mesma página, outra notícia, mais pequena, entalada entre uma breve sobre fogos florestais e um anúncio a telefones. “Criança morre em Viseu com arma em casa do avô”. Pela leitura da notícia não se fica a saber o nome da criança, só que era uma rapariga e tinha dez anos.

A criança morta pelo cão da primeira notícia chamava-se Dinis. Era um bebé de 18 meses e chamava-se Dinis.

E é só.