A calma é maior do que no campo. Ou parece. No campo não é calma, é vastidão - e nós no meio. Há os barulhos não atribuíveis de que não se tem medo porque são dali. No campo não se diz ‘o campo’, como a cidade raramente se nomeia. A calma só existe nos subúrbios bons porque é uma criação. As almas todas juntas, separadas em caixas, a fingir que não se ouvem umas às outras a fazer amor, a arrumar a cozinha, a ver má televisão, a deambular na insónia. Separados de um centro por uma linha de comboio, por uma estrada que, pensamos, está agora vazia. Protegidos de acidentes e roubos, acreditamos, com saudades da terra, do campo, exilados das nossas pronúncias que até já dizemos ‘o campo’. E por isso o verdadeiro medo está aqui. Há um terror que é só dos subúrbios bons. Sentimo-lo quando regressamos tarde.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
sábado, 3 de agosto de 2013
a cidade
"No campo não havia nada que pusesse à prova a minha esperança. Tinha feito as pazes com a minha esperança. Mas quando cheguei a Nova Iorque, bastaram algumas horas para Nova Iorque fazer aquilo que faz às pessoas - despertar as possibilidades. A esperança irrompe".
Philip Roth, "O fantasma sai de cena", D. Quixote.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
todos os nomes
Na página 7 do jornal “Público” de ontem está a notícia que já tinha visto, partilhadíssima que foi no Facebook. “Cão que matou bebé sai do canil e passa a chamar-se Mandela”.
No canto superior direito da mesma página, outra notícia, mais pequena, entalada entre uma breve sobre fogos florestais e um anúncio a telefones. “Criança morre em Viseu com arma em casa do avô”. Pela leitura da notícia não se fica a saber o nome da criança, só que era uma rapariga e tinha dez anos.
A criança morta pelo cão da primeira notícia chamava-se Dinis. Era um bebé de 18 meses e chamava-se Dinis.
E é só.
domingo, 28 de julho de 2013
girl you'll be a woman soon
Não foi há muito tempo. Ou a contagem real ainda finge (bem ?) coincidir com a nominal. Quinze ou vinte anos é esticar a corda, conseguindo ainda convencer alguém. A mim própria.
Foi, portanto, não há muito tempo. Era emocionante ser uma rapariga à beira de se tornar uma mulher. O abismo era larguíssimo e confortável, andava-se lá em pé e sem sapatos. Havia espaço para convidar os outros para aquela plataforma. Porque pensava que seria um único mergulho (bem mais rapariga do que mulher, lá está) ou uma sequência encadeada de saltos determinados. Não foi. A rapariga nunca me abandonou. Tenho que confiar nela.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
el deseo producciones presenta
"I’m going to begin by telling you about Miss Frost. While I say to everyone that I became a writer because I read a certain novel by Charles Dickens at the formative age of fifteen, the truth is I was younger than that when I first met Miss Frost and imagined having sex with her, and this moment of my sexual awakening also marked the fitful of my imagination. We are formed by what we desire. In less than a minute of excited, secretive longing, I desired to become a writer and to have sex with Miss Frost – not necessarily in that order".
“In one person”, John Irving.
Ainda não tinha recuperado daquela frase – “We are formed by what we desire” – e já um formigueiro me dizia qual era o livro de Dickens. Era um desejo que também era uma certeza. “Great Expectations”, que a tradução limita a “Grandes Esperanças”. Assim foi. Também por mim lido na formativa idade de, creio, dezasseis anos, na altura em que não fazia listas de livros para ler. É bom encontrá-las em blocos de notas antigos e constatar o que efetivamente acabei por ler, mas, sobretudo, tentar decifrar o que é que eu estava à procura. “In one person” é um bom livro para quem gosta de fazer listas de livros a ler. Um escritor é um leitor, daqui nunca saímos, e contar o que ele desejou é contar os livros que leu e como lhe foram parar às mãos. Não lemos só para nos reconhecermos nas coisas, isso é primário. Mas sim, lemos para nos reconhecermos nas coisas, o sentimento de identificação é demasiado poderoso para o votarmos ao ‘snobismo’ que uma licenciatura na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa nos tentou inculcar. Olhemos as coisas com distância ou acabamos todos a ler romances de cordel, pareceu-me ouvir dizer demasiadas vezes durante aquele pesadelo académico. Tretas. Foi tão bom descobrir que o jovem deste romance também se aborrecia com livros de aventuras. Distingo perfeitamente o meu momento. Foi na trilogia de Alice Vieira “Chocolate à chuva”, “Rosa, minha irmã rosa” e “Lote 12, 2º frente”. É disto que eu gosto, esta mulher está a escrever sobre mim, sobre os meus pais, sobre as minhas amigas, sobre o meu país. Porque o conforto dura pouco tempo. Já passei o meio de “In one person” e ainda estou presa naquela frase impressa na primeira página.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
working class prophet
"À procura de Sugar Man", de Malik Bendjelloul.
A voltar muitas vezes. E sempre que nos tentem vender o que é o sucesso.
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