domingo, 28 de julho de 2013

girl you'll be a woman soon



Não foi há muito tempo. Ou a contagem real ainda finge (bem ?) coincidir com a nominal. Quinze ou vinte anos é esticar a corda, conseguindo ainda convencer alguém. A mim própria.

Foi, portanto, não há muito tempo. Era emocionante ser uma rapariga à beira de se tornar uma mulher. O abismo era larguíssimo e confortável, andava-se lá em pé e sem sapatos. Havia espaço para convidar os outros para aquela plataforma. Porque pensava que seria um único mergulho (bem mais rapariga do que mulher, lá está) ou uma sequência encadeada de saltos determinados. Não foi. A rapariga nunca me abandonou. Tenho que confiar nela.





quarta-feira, 17 de julho de 2013

el deseo producciones presenta

"I’m going to begin by telling you about Miss Frost. While I say to everyone that I became a writer because I read a certain novel by Charles Dickens at the formative age of fifteen, the truth is I was younger than that when I first met Miss Frost and imagined having sex with her, and this moment of my sexual awakening also marked the fitful of my imagination. We are formed by what we desire. In less than a minute of excited, secretive longing, I desired to become a writer and to have sex with Miss Frost – not necessarily in that order".

“In one person”, John Irving.

Ainda não tinha recuperado daquela frase – “We are formed by what we desire” – e já um formigueiro me dizia qual era o livro de Dickens. Era um desejo que também era uma certeza. “Great Expectations”, que a tradução limita a “Grandes Esperanças”. Assim foi. Também por mim lido na formativa idade de, creio, dezasseis anos, na altura em que não fazia listas de livros para ler. É bom encontrá-las em blocos de notas antigos e constatar o que efetivamente acabei por ler, mas, sobretudo, tentar decifrar o que é que eu estava à procura. “In one person” é um bom livro para quem gosta de fazer listas de livros a ler. Um escritor é um leitor, daqui nunca saímos, e contar o que ele desejou é contar os livros que leu e como lhe foram parar às mãos. Não lemos só para nos reconhecermos nas coisas, isso é primário. Mas sim, lemos para nos reconhecermos nas coisas, o sentimento de identificação é demasiado poderoso para o votarmos ao ‘snobismo’ que uma licenciatura na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa nos tentou inculcar. Olhemos as coisas com distância ou acabamos todos a ler romances de cordel, pareceu-me ouvir dizer demasiadas vezes durante aquele pesadelo académico. Tretas. Foi tão bom descobrir que o jovem deste romance também se aborrecia com livros de aventuras. Distingo perfeitamente o meu momento. Foi na trilogia de Alice Vieira “Chocolate à chuva”, “Rosa, minha irmã rosa” e “Lote 12, 2º frente”. É disto que eu gosto, esta mulher está a escrever sobre mim, sobre os meus pais, sobre as minhas amigas, sobre o meu país. Porque o conforto dura pouco tempo. Já passei o meio de “In one person” e ainda estou presa naquela frase impressa na primeira página.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

working class prophet


"À procura de Sugar Man", de Malik Bendjelloul.


A voltar muitas vezes. E sempre que nos tentem vender o que é o sucesso.

domingo, 30 de junho de 2013

beloved

"Em cinco tentativas não teve um único sucesso permanente. Cada uma das suas fugas (de Sweet Home, de Brandywine, de Alfred, na Geórgia, de Wilmington, de Northpoint) tinham-lhe saído frustradas. Sozinho, sem disfarce, com a pele visível, cabelo memorável e sem nenhum branco para o proteger, nunca conseguiu evitar ser capturado. O período de tempo mais longo fora quando fugira com os condenados, ficara com os cherokee, seguira os conselhos deles e ficara escondido com a tecelã em Wilmington, no Delaware: três anos. E em todas as suas fugas não conseguiu evitar sentir-se surpreendido por aquela terra que não era a sua. Escondeu-a no peito, escavou a terra em busca de comida, agarrou-se às suas margens para saltar cursos de água e tentou não a amar. Em noites em que o céu era pesado, fraco pelo peso das próprias estrelas, obrigava-se a não a amar. Os seus cemitérios e rios baixos. Ou apenas uma casa – solitária sob uma amargoseira; talvez uma mula aparelhada e a luz a incidir-lhe no pelo de uma certa maneira. Qualquer coisa o comovia e esforçou-se para não a amar".


Toni Morrison, “Beloved”

sábado, 8 de junho de 2013

1987

Buzinadelas de um casamento ao sábado de manhã. E não, não estou no meu quarto em casa dos meus pais.

“Estão a ir para cima, a noiva é a última”.

“Vem almoçar. Não vale a pena. Os noivos já passaram, são os primeiros, vão casados”.

Ficar à janela a querer um vislumbre da noiva à força, desafiando se o cortejo de carros com fitinhas de tule nas antenas sobe ou desce. Um vulto branco na parte de trás de um carro e imensas conclusões.

“É bonita”.

Buzinar num casamento, atirar tiros para o ar. Escapar.

terça-feira, 4 de junho de 2013

absolute beginners


"A essência do amor" ("To the wonder"), de Terrence Malick

Andei por urbanizações assim, novas e despidas de árvores, sozinhas no espaço. Julgamo-las aparecidas ali, de um dia para outro. Um cenário. Algum dia estes bairros serão como os outros, com as árvores e o fresco delas e as pequenas histórias?

“Aquela bandeira foi posta ali em homenagem ao anterior dono da minha casa, que morreu afogado”.

“No verão há concertos nesta pérgula”.

Claro que sim. Vão existir histórias e árvores. Custar-nos tanto a acreditar nisso é que é esquisito. O medo dos começos.

Começar um bairro. Começar num bairro.


Houston, Texas. Fotografia de Norberto Cuenca