domingo, 30 de junho de 2013

beloved

"Em cinco tentativas não teve um único sucesso permanente. Cada uma das suas fugas (de Sweet Home, de Brandywine, de Alfred, na Geórgia, de Wilmington, de Northpoint) tinham-lhe saído frustradas. Sozinho, sem disfarce, com a pele visível, cabelo memorável e sem nenhum branco para o proteger, nunca conseguiu evitar ser capturado. O período de tempo mais longo fora quando fugira com os condenados, ficara com os cherokee, seguira os conselhos deles e ficara escondido com a tecelã em Wilmington, no Delaware: três anos. E em todas as suas fugas não conseguiu evitar sentir-se surpreendido por aquela terra que não era a sua. Escondeu-a no peito, escavou a terra em busca de comida, agarrou-se às suas margens para saltar cursos de água e tentou não a amar. Em noites em que o céu era pesado, fraco pelo peso das próprias estrelas, obrigava-se a não a amar. Os seus cemitérios e rios baixos. Ou apenas uma casa – solitária sob uma amargoseira; talvez uma mula aparelhada e a luz a incidir-lhe no pelo de uma certa maneira. Qualquer coisa o comovia e esforçou-se para não a amar".


Toni Morrison, “Beloved”

sábado, 8 de junho de 2013

1987

Buzinadelas de um casamento ao sábado de manhã. E não, não estou no meu quarto em casa dos meus pais.

“Estão a ir para cima, a noiva é a última”.

“Vem almoçar. Não vale a pena. Os noivos já passaram, são os primeiros, vão casados”.

Ficar à janela a querer um vislumbre da noiva à força, desafiando se o cortejo de carros com fitinhas de tule nas antenas sobe ou desce. Um vulto branco na parte de trás de um carro e imensas conclusões.

“É bonita”.

Buzinar num casamento, atirar tiros para o ar. Escapar.

terça-feira, 4 de junho de 2013

absolute beginners


"A essência do amor" ("To the wonder"), de Terrence Malick

Andei por urbanizações assim, novas e despidas de árvores, sozinhas no espaço. Julgamo-las aparecidas ali, de um dia para outro. Um cenário. Algum dia estes bairros serão como os outros, com as árvores e o fresco delas e as pequenas histórias?

“Aquela bandeira foi posta ali em homenagem ao anterior dono da minha casa, que morreu afogado”.

“No verão há concertos nesta pérgula”.

Claro que sim. Vão existir histórias e árvores. Custar-nos tanto a acreditar nisso é que é esquisito. O medo dos começos.

Começar um bairro. Começar num bairro.


Houston, Texas. Fotografia de Norberto Cuenca

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Chico Buarque, entre outros

Prefiro os nossos sambistas
Prefiro o poeta pálido anti-homem que ri e que chora
Que lê Rimbaud, Verlaine, que é frágil, que te adora
Que entende o triunfo da poesia sobre o futebol
Mas que joga sua pelada todo domingo debaixo de sol

 
Da canção “Cinema Big Butts”, de Thaís Gulin.



No revés do estafado cliché, abomino a ideia segundo a qual em Portugal há futebol a mais. Não, se há é a menos, ou de menos, e sobretudo muito mal distribuído. O futebol não é para estar na abertura do telejornal nem no prolongamento das conversas da lamúria, fica melhor no pé e na pena de um poeta, na página de um cronista, na graça de um intelectual. Bola é arte, afeto e um camião de sensualidade inteligente.

Bom fim de semana.

terça-feira, 28 de maio de 2013

inacabada

“Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada é real.”

Jorge Luis Borges, “O Aleph”, editorial estampa.

Voltei a pegar no livro que parecia nunca ter lido. Estava lá a minha rubrica e a data, dezembro de 2005. Estavam lá os sublinhados, os sublinhados maiores, as chavetas e as setas. E quando li, lembrei-me do que tinha lido. Voltei a colocar a data, por baixo da outra, maio de 2013. Muitos sublinhados persistem, outros acrescento-os agora nesta leitura que, como a outra, é lenta, isso também recordei. Lido melhor com a leitura lenta, agora. Preciso dela, até, enquanto antes me impacientou. E tive a ideia bonita de que se for acrescentando datas de leitura e sublinhados, um dia terei, efetivamente, feito esta leitura. Mas não, bonito é que seja sempre incompleta.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Great Gatsby




“Transpusemos a grande ponte com o sol a passar por entre as vigas e a bruxulear sobre os carros em andamento e a cidade a erguer-se na outra margem do rio em pilhas brancas e tabletes de açúcar, todas elas construídas com a intenção de fazer esquecer o cheiro do dinheiro. Vista de Queensboro Bridge, Nova Iorque é a cidade que se vê, sempre, pela primeira vez, a eterna promessa desvairada do mistério e da beleza universais”.

F. Scott Fitzgerald, “O Grande Gatsby”.

Estava preparada para uma reinvenção do universo de Fitzgerald, para uma atualização discutível. Temia, mas até queria entrar num sonho ‘pop’ como “Romeu e Julieta” ou “Moulin Rouge”. Pensava que o filme de Baz Luhrmann seria um objeto tão distinto do romance, mas que agarrado a ele o homenageasse. O ceticismo não era maior que a esperança.

Só que “Great Gatsby” não é nada que se possa discutir, nem sequer uma oportunidade perdida. E não vale a pena culpar Leonardo DiCaprio. Se é na personagem de Gatsby que as fragilidades do filme melhor se apontam é porque é dela a força do romance e de passadas adaptações. Robert Redford encarnou aquele mistério, fez da ambiguidade movimento, voz.

Todas as personagens são caricaturas que interagem como num episódio de “Gossip Girl”. É doloroso de mau. E o pior é a sensação de que a partir deste filme quem ainda não o fez não queira ler aquele romance, onde, como Nova Iorque, se encontra mais do que se procura. E procura-se sempre a primeira vez que se viu, que se leu.