sexta-feira, 31 de maio de 2013

Chico Buarque, entre outros

Prefiro os nossos sambistas
Prefiro o poeta pálido anti-homem que ri e que chora
Que lê Rimbaud, Verlaine, que é frágil, que te adora
Que entende o triunfo da poesia sobre o futebol
Mas que joga sua pelada todo domingo debaixo de sol

 
Da canção “Cinema Big Butts”, de Thaís Gulin.



No revés do estafado cliché, abomino a ideia segundo a qual em Portugal há futebol a mais. Não, se há é a menos, ou de menos, e sobretudo muito mal distribuído. O futebol não é para estar na abertura do telejornal nem no prolongamento das conversas da lamúria, fica melhor no pé e na pena de um poeta, na página de um cronista, na graça de um intelectual. Bola é arte, afeto e um camião de sensualidade inteligente.

Bom fim de semana.

terça-feira, 28 de maio de 2013

inacabada

“Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada é real.”

Jorge Luis Borges, “O Aleph”, editorial estampa.

Voltei a pegar no livro que parecia nunca ter lido. Estava lá a minha rubrica e a data, dezembro de 2005. Estavam lá os sublinhados, os sublinhados maiores, as chavetas e as setas. E quando li, lembrei-me do que tinha lido. Voltei a colocar a data, por baixo da outra, maio de 2013. Muitos sublinhados persistem, outros acrescento-os agora nesta leitura que, como a outra, é lenta, isso também recordei. Lido melhor com a leitura lenta, agora. Preciso dela, até, enquanto antes me impacientou. E tive a ideia bonita de que se for acrescentando datas de leitura e sublinhados, um dia terei, efetivamente, feito esta leitura. Mas não, bonito é que seja sempre incompleta.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Great Gatsby




“Transpusemos a grande ponte com o sol a passar por entre as vigas e a bruxulear sobre os carros em andamento e a cidade a erguer-se na outra margem do rio em pilhas brancas e tabletes de açúcar, todas elas construídas com a intenção de fazer esquecer o cheiro do dinheiro. Vista de Queensboro Bridge, Nova Iorque é a cidade que se vê, sempre, pela primeira vez, a eterna promessa desvairada do mistério e da beleza universais”.

F. Scott Fitzgerald, “O Grande Gatsby”.

Estava preparada para uma reinvenção do universo de Fitzgerald, para uma atualização discutível. Temia, mas até queria entrar num sonho ‘pop’ como “Romeu e Julieta” ou “Moulin Rouge”. Pensava que o filme de Baz Luhrmann seria um objeto tão distinto do romance, mas que agarrado a ele o homenageasse. O ceticismo não era maior que a esperança.

Só que “Great Gatsby” não é nada que se possa discutir, nem sequer uma oportunidade perdida. E não vale a pena culpar Leonardo DiCaprio. Se é na personagem de Gatsby que as fragilidades do filme melhor se apontam é porque é dela a força do romance e de passadas adaptações. Robert Redford encarnou aquele mistério, fez da ambiguidade movimento, voz.

Todas as personagens são caricaturas que interagem como num episódio de “Gossip Girl”. É doloroso de mau. E o pior é a sensação de que a partir deste filme quem ainda não o fez não queira ler aquele romance, onde, como Nova Iorque, se encontra mais do que se procura. E procura-se sempre a primeira vez que se viu, que se leu.

sábado, 18 de maio de 2013

ser o outro

Quando peço ao outro que se ponha no meu lugar, tenho que procurar fazer o mesmo. Mas não é apenas por uma questão de honestidade que eu respeito quem não pensa como eu. É também porque essa é a única maneira de dialogar. Eu respeito a posição do outro, com o qual não concordo, também porque essa é a única forma de o outro poder algum dia pensar de outra forma.

Não é suposto pensarmos da mesma maneira sobre tudo, mas quando defendo a adoção por casais do mesmo sexo não estou a diletantemente procurar que os outros gostem das mesmas coisas do que eu. Não, estou a advogar por direitos humanos. Acredito que estou do lado certo da História e quero que outros estejam também para que o mundo se torne melhor para todos. Faço-o porque o apoio do outro que não pensa como eu é essencial nessa construção.

Na discussão e votação do projeto de lei da co-adoção deu-se esta coisa incrível. O mundo moveu-se, deu um salto pequeno mas muito importante. Isso só aconteceu porque houve pessoas que pensavam de determinada forma e agiam de determinada forma e, fruto da discussão, do diálogo, da reflexão, passaram a pensar e a agir de outra maneira.

Acredito que esta matéria não tem um cunho de esquerda ou direita, sabendo que a primeira tomou a dianteira na defesa destes direitos. O facto de essa clivagem estar a esbater-se, prova-o. Não me canso de recordar David Cameron, líder do Partido Conservador, primeiro-ministro da Grã-Bretanha, dizer: “Eu não defendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo apesar de ser conservador, eu defendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo porque sou conservador”.

A perspetiva histórica ajuda tanto e é tão acessível. Ninguém precisa de ler tratados ou resolver fórmulas matemáticas para saber que os direitos das mulheres e dos negros passaram por processos semelhantes.

Nesses processos como neste houve ruturas, sim, houve confronto, sim. Mas houve sobretudo diálogo. É nisso que eu acredito. Mesmo contra o insulto. Sobretudo contra o insulto. Quando oiço à minha volta, em meios supostamente informados, falar em “paneleiros” e “fufas” não quero e não vou sucumbir. O insulto não me vai transformar naquilo que não sou, uma radical.

sábado, 11 de maio de 2013

nomear ao pingarelho

A geração Sandra Isabel, Andreia Alexandra, Rita Vanessa estava cheia de um amor ao futuro que só pode ser esperança. As coisas iam ser diferentes. As portuguesas, mais bonitas por exposição às brasileiras das novelas, deixam de ter buço e querem que as filhas tenham nomes de composto exotismo. O que querem os pais da Benedita, da Maria da Assunção, da Carlota? O que é velho tem charme, eu sei, não estou imune, esperando aliás, que a minha própria antiguidade me trate com delicadeza. Agora, há uma novidade que vou dar e que de ser tão óbvia talvez tenha escapado. Todas as famílias são por definição antigas, por isso é que chegaram até aqui. E nunca esquecer que, já para não falar em Rute, por exemplo, Dina, é um nome bíblico. Nomeemos, pois.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

London calls



A ausência do blogue não muda nada. O mundo continua cheio de desgraças e de maravilhas. A gala do Met, em NYC, tem sido lugar de experimentação, num daqueles mistérios da passadeira vermelha que continuarei a ignorar porque não tenho energia para tentar perceber tudo. Só que inovar, per si, não garante muito. Uma inspiração ‘punk’ como a de Sarah Jessica Parker, por exemplo, não correu bem, enquanto que uma outra mostrou bem que o ‘punk’ não está morto, não senhora. Alive and kicking, Sienna Miller, em Burberry, honrou a ilha que deu o movimento ao mundo. Que coisa mais adorável.

sexta-feira, 26 de abril de 2013